O que há de novo em conceitos de reciclagem?

A Lei Nacional de Resíduo Sólido, Lei Federal 12.305/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), estabeleceu princípios e objetivos para a gestão de resíduos, um marco no Brasil. Com ela, esperava-se reduzir os impactos do descarte de resíduos no meio ambiente, em consonância ao que o restante do planeta estava realizando.

O tema reciclagem recebe uma média de 165.000 buscas mensais pelas palavras “sustentabilidade” e “reciclagem”. As pesquisas contabilizam cerca de 65.000 resultados, entre artigos, materiais, notícias, campanhas, petições e divulgação de novos projetos. Esse número é resultado de novos valores, novas prioridades e a conscientização de que precisamos mudar hoje para transformar o nosso futuro. O mercado está mais receptivo e cobrando uma posição não só da sociedade civil, mas também das indústrias.

A resposta pelo consumo acelerado de recursos naturais e a falta de um desenvolvimento social ambientalmente correto já atinge milhões de pessoas.

Se o tema é cada vez mais relevante, por que é tão difícil a sua gestão efetiva?

Para responder a essa questão, é necessário entender o que engloba a sustentabilidade.

O termo sustentabilidade se refere à relação entre a sociedade e a natureza, propondo um desenvolvimento que “satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas próprias necessidades”, conforme descrito pela Organização das Nações Unidas (ONU) e ao que parece, um conceito quase universal.

Porém, para que esse conceito seja prático, é necessário o equilíbrio entre três pilares fundamentais, também chamados de Tripé da Sustentabilidade: Social, Ambiental e Econômico. O objetivo é alcançar o ponto ideal, a intersecção entre estas três esferas.

A gestão de resíduos influencia cada um dos pilares da sustentabilidade, agregando benefícios não só para a sustentabilidade ambiental, mas também para o bem-estar social e o desenvolvimento econômico.

Apesar disso, há um grande dilema: Afinal, as empresas não desejam utilizar grandes recursos econômicos para o descarte adequado, contudo também não querem viver cercadas de lixo e nem correr riscos com sua reputação em caso de acidentes ambientais.

Conceito de Lixo Zero

Todos já ouvimos a respeito do conceito de lixo zero, mas os caminhos práticos não são tão simples assim.

As empresas pelo mundo usam há muito tempo um mesmo modelo de produção, explorando diversos recursos naturais para criar produtos que têm uma vida útil cada vez menor; o famoso consumismo. E a maioria desse produto é descartável.

Um estudo de 2012 do Banco Mundial fez uma estimativa de que em 2025 o total de lixo produzido por pessoa por dia será de 1,4 kg. Serão mais de 10 milhões de toneladas de lixo por dia! Pensando que cerca de 80% de todos os resíduos que são produzidos em uma cidade poderiam ser reciclados ou reutilizados, algumas cidades pelo mundo declararam o Lixo Zero como meta em suas jurisdições, inclusive aqui no Brasil.

Conceito de 5R

A hierarquia do lixo zero prevê um descarte mínimo de rejeitos, um ideal alcançável por meio dos 5R: recuse o que você não precisa, reduza o que puder, reutilize o que for possível, recupere produtos e recicle o restante. Mais uma vez, simples no discurso e conceito, difícil na prática.

A grande tendência do consumismo é adquirir mais coisas do que realmente se precisa. O primeiro R, recusar, leva em consideração um consumo consciente para todos os produtos possíveis. Porém, depende de um amadurecimento coletivo e reflexão sobre as reais necessidades de consumo.

Depois de recusar produtos que não precisamos, podemos também mudar a forma de produção e consumo. Redesenhando o atual modelo de negócio, com o fim, por exemplo, dos plásticos descartáveis de uso único, que poderiam ser substituídos por uma matéria-prima reutilizável. Isso demanda tecnologias que nem sempre estão disponíveis, ou são extremamente onerosas.

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Com a redução de consumo, além de comprar menos, a população também pode escolher produtos que tenham baixo impacto ecológico, vindos de fontes renováveis de produção. Vários produtos que são jogados fora todos os dias poderiam ser reutilizados, ganhando novos usos ou virando coisas novas para aumentar a sua vida útil. Isso evitaria a criação de resíduo e também a compra de um novo produto, que exigiria o uso de mais recursos naturais.

Há também o R de recuperar, ou seja, a arte de transformar as coisas que parecem perdidas em novas. Peças de roupas, móveis velhos, sucata, embalagens plásticas, tudo pode ser recuperado, mas exige criatividade e disposição.

Assim, de todos estes R, o que ainda se mostra mais viável é o que seria o último recurso, que é reciclar. Apesar de um dia ter sido considerada a grande solução para os problemas de consumo, o processo exige energia para conversão e, como tudo tem perda, não é um sistema perfeito. O próprio plástico, que está tão presente nas nossas vidas, quase não é reciclado. Quando a sua vida útil acaba, a tendência é ser descartado, pois ainda é muito mais barato criar novos produtos do que reciclar. Além disso, os únicos itens que podem ser reciclados de forma infinita são o vidro, o inox e o alumínio.

Existe um crescente movimento no setor público e privado para atender à exigência de processos, produtos e ciclos produtivos mais sustentáveis. O grande desafio é transformar a reciclagem para este ser o principal caminho para pouparmos matérias-primas, água e energia, bem como reduzirmos a poluição e a geração de resíduos, viabilizando a prática de uma economia circular.

Revisão dos processos industriais

Desde 2015, todos os países membros das Nações Unidas adotaram uma agenda que estabelece metas para o desenvolvimento sustentável até 2030. Entre as principais metas está a industrialização inclusiva e sustentável, o que compreende o emprego da inovação e da tecnologia em ciclos produtivos rentáveis, capazes de contribuir com a geração de empregos e minimizar os impactos no meio ambiente.

De acordo com o relatório comparativo sobre o avanço dos indicadores, publicado pela organização em 2019, o nível de emissões de CO2 pelas indústrias está em declínio desde 2010, ao mesmo passo que o setor traz ganhos significativos do ponto de vista econômico, ambiental e social.

No entanto, o relatório ressalta que o mundo ainda tem um longo caminho a percorrer para aproveitar todo o potencial de uma produção sustentável, demandando maiores investimentos em pesquisa científica e inovação para a próxima década.

Necessidade de mudança

A principal mudança necessária para processos produtivos sustentáveis é a transformação da cadeia de suprimentos. O consumo consciente dos recursos finitos é determinante para o futuro do planeta e, portanto, é o que deve moldar o futuro do mercado.

Nesse caminho, os recicláveis são uma importante oportunidade para a redução dos impactos ambientais e da geração de resíduos em todos os segmentos. Além disso, reaproveitar materiais que podem ser reciclados e transformados em novos produtos agrega benefícios tanto para a produção industrial como para a economia.

A maioria dos materiais pode ser reutilizada como matéria-prima na produção de novos produtos, desde que descartada corretamente.

Ampliação das fontes de energia renovável

Outra meta estabelecida pela agenda de desenvolvimento sustentável da ONU, o aumento de fontes de energia limpa, também é uma tendência no segmento industrial.

Além de maiores investimentos em energia eólica e solar, por exemplo, as pesquisas e tecnologias do setor também viabilizam a produção de energia a partir da reciclagem de materiais, em especial o plástico. Essa é uma evolução significativa para a forma como lidamos com nossos resíduos.

Aliada a esse avanço, a capacidade de armazenamento de energia também vem sendo aproveitada como uma forma de reduzir cargas de pico na demanda de processos produtivos, vista como um passo essencial para a sustentabilidade e eficiência energética.

Dessa forma, a próxima década promete investimentos em pesquisa e tecnologia para a redução dos materiais de utilidade única, bem como o aumento dos recicláveis e biodegradáveis.

E no que os sistemas de gestão podem auxiliar neste processo?

O simples cumprimento de uma legislação é sempre medíocre, pois trata-se do mínimo a ser feito. Um sistema de gestão bem implementado e controlado possibilitará que as indústrias façam mais do que obriga a legislação, trazendo ganhos efetivos no processo de mudança, além de contribuir para a conscientização de colaboradores e demais partes interessadas para que os conceitos sejam aplicados também em âmbito pessoal e familiar.

O caminho é longo, mas a boa notícia é que várias organizações colhem hoje os frutos do amadurecimento e inovação da reciclagem que fizeram lá atrás.

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Fábio Costa
Fábio Costa

Fábio Costa é Engenheiro e Mestre em Ciências e Engenharia de Materiais pela Universidade Federal de São Carlos/SP. Possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV e atua desde 1996 na gestão de segmentos industriais e prestação de serviços. Especialista em Controles Gerenciais, Compliance, Gestão de Marketing, Logística, Empreendedorismo, Gestão de Processos, Custos e Fluxo de Caixa. Auditor Líder reconhecido em Sistemas de Gestão ISO 9001, ISO 14001, ISO 22000, ISO 45001, ISO/IEC 17025, FSSC e SASSMAQ, com experiência em auditorias, treinamentos e implementação de Sistemas de Gestão. 💻https://costaduran.com.br/

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